Vida. O motivo unânime que reuniu centenas de pessoas na cerimônia ecumênica de encerramento do funcionamento do Hospital de Campanha do Hangar, neste sábado (16), em Belém, ato que marcou uma retrospectiva de toda a luta contra a covid-19 no Pará.

Há 18 meses, a população paraense viu o primeiro ‘tsunami’ da Covid-19 chegar ao Estado e tal qual uma arca, o Hangar se tornou – de espaço cultural, científico e de negócios -, em tempo recorde, no maior hospital de campanha do Brasil à época de sua inauguração.

Lideranças religiosas de diferentes denominações oraram pelos mortos e agradeceram aos que se dedicaram a salvar milhares de vidas

Um verdadeiro exercício de heroísmo de  profissionais que trabalharam na linha de frente para atender o número máximo de 420 leitos ofertados, que receberam mais de 7 mil pacientes em quase dois anos de pandemia.

DIVERSIDADE DE FÉ

A celebração contou com a participação de representantes de diversas denominações religiosas. Juscelino Fernando Santos, bispo da igreja Universal, falou sobre o lugar de história que se tornou o Hangar. “Quero agradecer não apenas ao governador pela oportunidade de estar aqui, mas primeiramente a Deus, pois sem Ele não seria possível. O Hangar foi prova de tudo o que o governo fez. Vidas foram perdidas. Filhos, mães, pais e avós, cada um com seu valor incalculável. Através do Hangar quase 5 mil vidas foram salvas”, disse o bispo, antes de fazer uma oração de agradecimento.

Samuel Câmara, líder da Igreja Evangélica Assembleia de Deus, lembrou que o Hangar foi criado no pós-guerra, depois para receber celebrações e se tornou a referência da vida ao atendimento dos que sofriam. “Hoje estamos nos despedindo desse lugar que mais aliviou dores. E ficará no lugar de despedida digna de muitos irmãos que merecem esse momento de gratidão a Deus”, afirmou, antes de entoar um hino que reforça que agora se pode crer no amanhã.

CONQUISTA

Dutra representou a Convenção Interestadual de Ministros e Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Pará (Comieadepa).  “Muitos irmãos reviveram aqui nesse lugar. Quero parabenizar todos os profissionais que têm doado seu tempo e sua vida para salvar vidas. Aqui fala de conquista, da árvore de vida. Esse desejo está sendo realizado neste momento. Nossa missão é orar”, disse o pastor.

Mametu Nangetu representou as religiões se matriz africana e se direcionou ao governador Helder Barbalho. “Quero agradecer a sua ousadia, pois sabemos que não foi uma gripezinha. Eu peguei duas vezes covid e agradeço ao SUS. Eu digo que esse momento é de celebração. Celebrar a vida. Deus abençoe o Governo do Pará e as secretarias que tenham esse olhar humano”, falou em nome do comitê inter-religioso.

Maria Heloíza Paes de Souza, representante da Associação Islâmica de Belém e citou o Alcorão sagrado. “Não há nada melhor do que o sentimento de paz especialmente no momento que ainda estamos atravessando. O Hangar deve voltar a sua função original. Peço licença, pois era professora de história e trabalhei por 27 anos no colégio Rêgo Barros. Do colégio era possível ver dois hangares que abrigavam aviões. Passados os anos pudemos vir ele se tornar um espaço de feiras e eventos. Naquela época não sabíamos que se tornaria um hospital de campanha. É certo que um espaço pode ter muitas funções e esse teve muitas”, lembrou Maria.

Nicolau Paiva, representante da Igreja Evangélica de Confissão Luterana, destacou a importância de agir com a verdade em tempos de fakenews. ‘Mentir é pecado. Agradeço a rebeldia de dois governadores, Helder Barbalho (PA) e Flávio Dino (MA). Deus nos gerou pela palavra da verdade. Nós poderíamos estar celebrando mais vidas salvas se tivesse ocorrido o cuidado seriam ainda mais vidas. Não paramos de falar e denunciar. Fomos muito criticados, mas a responsabilidade nos incumbe de orientar. Não havia direito nem de sepultar ou se despedir do familiar, cheguei a fazer Liturgia em 15 segundos”, lembra o religioso.

LUZES

Regina Maria da Conceição representou o espiritismo, informando que a doutrina não se trata de uma religião específica, mas que recebe pessoas de diversas denominações que desejam estudar e seguir o evangelho. “Agradeço às autoridades, ao prefeito Edmilson Rodrigues, que está doente, aos trabalhadores que não mediram esforços, entraram na batalha e se contaminaram. E às famílias enlutadas lembrem-se que são bem-aventurados os que choram porque serão consolados. Pedimos luzes e discernimenfo aos que partiram”, reforçou a espiritualista.

Representando a religião Wicca, Miriam Carvalho agradeceu aos profissionais que ficaram distantes de seus familiares. “Ao governador que foi visto muitas vezes fazendo inspeções para que o povo paraense fosse curado. Em nome da Senhora da Cura, o elemento terra, ar, fogo e agora a cura da água (no momento chovia) abençoada seja toda cura. Agradeço também todo o comitê inter-religioso que se uniu e orou em nome dos que lutaram”, reforçou a respresenttante.

O discurso final coube ao Cônego Silvio Trindade, representando a Igreja Católica. “Há uma semana vivemos o Círio que nos interpelou a olhar o outro com caridade. Ele ultrapassa as fronteiras da igreja católica. Ele é do povo paraense. Celebrar a desativação significa dizer quantos erros, acertos, perseguição. Mas a vida sempre prevalece. Não podemos olhar para esse espaço como lugar de morte, mas de ressurreição. Inaugurar um memorial nesse espaço significa marcar a história de cada família enlutada e vencedora. Quantas vezes vimos aquele sino tocar. A plaquinha de ‘eu venci a Covid’. Aqui não é o lugar do medo. Era do cuidar”, enfatizou o cônego.

BOLETIM COVID-19

“Viva a ciência!” Ouviu-se do interior da plateia diante da homenagem ao Grupo de Pesquisa Boletim Covid-19, que foi nomeado um a um para receber os aplausos de um público de pé. O grupo garantiu semanalmente ao Governo do Estado análises do comportamento da pandemia com base em redes neurais e modelagem matemática que subsidiaram as transferências de leitos em momentos distintos pelas regiões do Pará.

Governador Helder Barbalho fez um retrospecto do combate à covid-19 e se solidarizou com as famílias que tiveram perdas

O governador fez um resgate histórico de toda a batalha e apoio que recebeu em decisões que precisaram de ousadia no combate à doença. “Se hoje podemos fechar esse equipamento, assim como os demais, é graças à vacina. Queria homenagear as famílias que perderam entes queridos, a minha solidariedade. Que Deus possa confortá-los a entender um dia que eles foram os escolhidos”, disse o chefe do Executivo paraense em discurso emocionado.

Helder agradeceu aos líderes que se dispuseram a estar presentes no momento de reverência  aos profissionais de saúde e solidariedade às famílias. “É possível, todos nós pensando e crendo diferente estarmos no mesmo ambiente de forma civilizada. Desejo recuperação ao prefeito Edmilson. Agradeço a parceria com a prefeitura de Belém em favor da vida”, disse ao prefeito em exercício, professor Edilson Moura.

O horário do culto coincidiu com o mesmo de entrada do primeiro paciente de covid-19, em  10 de abril de 2020. “Foram cerca de mil profissionais em todos os turnos para cuidar de 7 mil pessoas que passaram por aqui. Agradecer a todos que doaram as suas vidas e exerceram de forma mais plena a missão de servir. Hoje é um dia histórico. Estamos encerrando um ciclo e iniciando outro mas é fundamental quer possamos reconheecer. Me orgulho do Pará ter sido um exemplo no enfrentamenntoo à covid. E termos tido a capacidade, a ousadia, agilidade e coragem de fazer com que nesse estado o sistema público não sucumbisse. Aqui recebemos irmaos de outros estados do Brasil. Tivemos a oportunidade de abrir estruturas de Hospital de campanha em Belém,  Breves, Santarém, Marabá, e Altamira para que pudessem somar-se aos hospitais regionais. O Estado chegou a 2 mil leitos específicos para covid, graças ao comitê científico quer nos sinalizava para onde enviar leitos. Pudemos inovar com 800 vôos em todas as regiões do Estado, para deslocar pacientes paraenses entre os  territórios do Pará”, citou Helder.

O governador ressaltou o trabalho da Sespa com profissionais trabalhando diuturnamente e do quanto muitos deles deixaram de voltar para casa para não colocar em risco seus familiares. Mencionou ainda as policlínicas indo por estrada e rios e o cenário de guerra durante a abertura emergencial do Hospital Regional Abelardo Santos para atendimento Covidc-19.

ÁRVORES DA VIDA

Jacilene Miranda perdeu o único irmão para a covid-19 e, emocionada, plantou uma muda de árvore em memória dos que partiram

Antes do apagar das luzes do Hospital de Campanha em definitivo, três mudas foram plantadas em alusão às famílias enlutadas, aos pacientes recuperados e aos profissionais de saúde.

Jacilene Miranda de Azevedo perdeu o único irmão para a Covid-19. A primeira pessoa a plantar a muda estava emocionada, rememorando o momento fulgaz do sepultamento de Jackson Miranda da Costa, que faria aniversário de nascimento neste sábado, 16. “Aquela planta vai crescer e talvez dê frutos. É uma sensação muito especial principalmente hoje”, falou Jacilene.

Ao final do dispositivo, um clima de confraternização tomou conta do estacionamento do Hangar com os profissionais de saúde comemorando reencontros. Wanessa Campos foi coordenadora de Enfermagem em 2021 e estava muito emocionada. “Trabalhamos com muito empenho e não víamos esse dia chegar. Só temos a agradecer a todos que dedicaram e arriscaram as suas vidas para salvar outras. Esse momento é o nosso troféu depois de tanta luta e tanto choro. Devolvemos a muitas famílias os seus amores e hoje estamos comemorando”, disse a enfermeira.

No total, 7.388 pacientes foram atendidos, dos quais 345 foram transferidos e 4.944 receberam alta. O último paciente foi transferido na tarde de quinta-feira (14) para o Hospital Santa Terezinha, onde funciona o Centro Especializado em Atendimento à Covid-19, também na capital. Estevam Caldas de Sá, 82 anos, morador de Marituba, na Região Metropolitana de Belém, estava internado na unidade de saúde desde 28 de setembro.

Os equipamentos do Hangar serão redistribuídos em unidades de saúde que retornam aos seus perfis de atendimento.

Fonte: Agência Pará
Foto: Rodrigo Pinheiro