Com pouco mais de dois mil habitantes, o distrito de Caraíva, no sul da Bahia, vai muito além da famosa casinha verde postada em redes sociais por blogueiros e influencers. A comunidade, que é uma reserva extrativista, sediada em uma área de proteção ambiental e administrada por órgãos federais como Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), apresenta diversos problemas, principalmente nos quesitos lixo e saneamento básico.

Moradores contam a Nossa o “lado B” do pequeno vilarejo que foi descoberto por turistas e que não aparece no feed do Instagram.

Crescimento da cidade

Com a chegada da luz elétrica, que só ocorreu em 2007, Caraíva começou a se tornar o lugar de praia queridinho por viajantes que gostam da vibe “roots”. Depois de alguns anos, a internet também ficou acessível para as pousadas e começou a atrair ainda mais pessoas para o paraíso de mar e rio.

Gabriela Scarcelli, 43 anos, frequenta o distrito há 26 anos e conta que antes pouquíssimas pessoas sabiam que o lugar existia.
“Se me perguntar, claro que eu prefiro a Caraíva de 1998, mas não tem como manter paraísos sem serem descobertos”, relata.

Saneamento básico precário

Há dois anos, a água encanada começou a ser distribuída pela Embasa, concessionária de serviços de saneamento básico de quase todo o estado da Bahia. Porém, essa realidade não funciona de maneira efetiva e não são todos os moradores que têm acesso a essa água para uso.

“Se a pessoa mora em um local mais alto, por exemplo, na maioria das vezes não tem como usar essa água. Às vezes fica dois dias sem, por isso não tem como contar totalmente com esse recurso”, diz Martim.

Por causa disso, alguns deles são obrigados a recorrer a poços artesanais de 12 a 15 metros de profundidade. Muitas vezes, a água retirada do local é de cor amarelada, salgada ou até barrenta. Outro problema é que não todas as pessoas de Caraíva que têm fossa ecológica, e sim, a fossa negra. Nesta última, é feito um buraco no solo que pode ser coberto ou não, onde é direcionado a água e dejetos, aumentando o risco de contaminação do lençol freático.

Muito lixo, pouca coleta seletiva

Com o desenvolvimento do turismo que, de acordo com moradores ouvidos pela reportagem, cresceu de cinco anos para cá, a sujeira aumentou exponencialmente na vila.

“O aumento do volume de pessoas foi péssimo para o acúmulo de lixo. Temos muitos problemas em relação a isso e não temos coleta seletiva”, explica Martim Arantes, morador de Caraíva há oito anos e membro do conselho comunitário e ambiental do distrito.

Juvanir Oliveira, 28 anos, trabalha como bugueiro na região há mais de 10 anos e conta que o aumento de pessoas trouxe, consequentemente, mais lixo. ”
Algumas pessoas deixam seus lixos e não recolhem. Além disso, aparecem com som alto e fazem muito barulho, desrespeitando a vila”, afirma.

Desde 2017, o distrito tem feito campanhas para reduzir e acabar com a venda de cervejas e bebidas long neck. Como esse material é pesado, o trajeto para carregá-las até o rio e jogá-las era demorado, além de muito trabalhoso. “Ela chegou a representar 75% do lixo produzido no verão”, ressalta Martim. Hoje, as pousadas e restaurantes priorizam a venda de garrafas de 600 ml (que é retornável) e bebidas em lata. Somente os mercados vendem a bebida e são os maiores produtores de lixo da região, de acordo com o morador.

A coleta seletiva também não existe no distrito. O único lixo que, às vezes é separado, é o orgânico e, mesmo assim, ainda não há um destino certo para ele. “Às vezes, ele é colocado na composteira ou dado para os porcos. Mas não é sempre assim”, afirma Gabriela. Na alta temporada, que é principalmente no verão, há um aumento exponencial de sujeira e a prefeitura não assume os custos extras em relação ao recolhimento ou aumento do número de carroceiros que recolhem o lixo. É a própria comunidade e empresários da região que pagam por um número a mais de funcionários para ajudar na retirada do lixo, seis vezes por semana. “Esse valor já chegou a 90 mil reais, que foi dividido por radores da vila”, relata Martim.

Na baixa temporada, o recolhimento cai para três a duas vezes por semana e todos os custos são assumidos pela prefeitura.

Exploração animal

Logo ao chegar em Caraíva e cruzar o rio, é muito comum ver carroceiros oferecendo o transporte conhecido como “Juber”, que são carroças com jumentos ou cavalos. Este é o principal meio de transporte da região e eles são usados para levar turistas com malas e também insumos para a comunidade. No entanto, alguns animais que trabalham para os carroceiros, sofrem maus tratos, trabalham carregando peso de maneira excessiva e por muitas horas ao longo do dia.

Gabriela que também coordena o projeto social “Caraíva proteção animal” explica que já houve diversas tentativas de modernizar e parar esse meio de transporte, mas ainda há um certo receio e aversão por parte dos carroceiros. “O ideal seria colocar algum transporte elétrico para eles trabalharem e não deixarem de ter uma fonte de renda, mas sabemos que isso pode demorar anos. Precisa repensar em todas as questões da cidade.”.

Mudar o meio de transporte de Caraíva é ainda mais complicado, já que no local é proibido a entrada de veículos motorizados. Por isso, muitos comerciantes e trabalhadores ainda fazem uso de charretes.
“Não são todos os carroceiros que maltratam os animais, mas muitos bichos ainda sofrem no trabalho sim. Tem burro cego trabalhando, albino que não pode pegar sol. Outro dia uma égua caiu e morreu no bueiro porque estava solta e sem nenhum cuidado. Foi triste”, relata Gabriela.

Para a moradora, o que deve ser feito são políticas públicas que ofereçam opções para o transporte de cargas e mantimentos, preservação do trabalho das pessoas e uma doação dos animais para santuários ou outras ONGs.

Sistema de saúde precário

Por muitos anos, Caraíva ficou sem cuidados básicos de saúde. Hoje, o distrito conta com um único posto no local e uma enfermeira. Mas nem sempre foi assim. Antes, não havia um médico fixo ou ajuda de um profissional permanente.

Embora tenha um posto médico, a região não tem estrutura adequada para um morador fazer uma cirurgia ou tratar uma doença grave, por exemplo. Caso sofra algum acidente e precise de um atendimento emergencial, a cidade mais próxima será Porto Seguro. Recentemente, uma moradora foi atropelada por um caminhão e precisava ser socorrida imediatamente.

Tentamos um helicóptero, mas não conseguimos e ela foi levada de carro mesmo. Depois, foi transferida para um hospital de Ilhéus e teve que amputar a perna”, conta Juvanir, que é cunhado da mulher e tentou ajudá-la na hora do atropelamento.

Preços abusivos

Por ser uma região de difícil acesso e estar cada vez mais “hype”, Caraíva tem um custo de vida caro para os próprios moradores. Irane Ribeiro de Oliveira, 32 anos, conta que muitos locais vão fazer compras nos municípios de Eunápolis ou Porto Seguro. “Você gasta o dia todo para fazer compras, mas só assim para pagar mais barato”, relata.

Os valores dos medicamentos também são inflacionados. Por só ter uma única farmácia na região, os altos preços também atingem os moradores e alguns produtos chegam a custar três vezes mais.

Pontos positivos e negativos

Todos os moradores concordam que embora o turismo tenha trazido muitos frutos ruins para a região, ele também ajudou no desenvolvimento econômico do vilarejo. Muitos moradores têm o poder aquisitivo para ter bens de consumo que vão desde geladeira até televisão. Mas esse aumento também trouxe a perda da essência”, afirma Martim.

Para ele, a mudança mais expressiva foi o tipo de quem frequenta hoje o lugar. “Antes as pessoas vinham para cá para morar e ficar em lugar pacato. Hoje, quem vem para cá é um perfil de investidor, que quer comprar coisas aqui e ver o vilarejo como um investimento no futuro”, finaliza.

Fonte: UOL
Foto: Getty Images